23 de novembro de 2017
Não há nada que eu diga que Drummond e Pessoa já não tenham dito.
Mas eu me repito.
Eu repito,
e a condição humana ressignifica a palavra.
E a condição mundana não entendeu o que eu falava.
Mas eu disse com exatidão,
e o que pareciam metáforas era a visão de um clarão.
Tudo se iluminou aqui.
Foram nascendo fagulhas,
que se transformaram em chamas.
E chamas ainda ardem em mim.
Mas ao contrário do sonhado,
não falo com alguém.
Meus poemas navegam por rios marginalizados,
e agora bifurcados pela correnteza,
só navegam em um único saber.
Não espero mais aplausos,
o que eu digo ninguém vai querer saber.
Eu mesma não quereria se os lesse sem me conhecer.
Mas eu me cavei poços fundos demais,
eu naveguei em rios isolados demais.
Ancorei em margens que não saberia narrar.
Conheci histórias que não me atrevo compartilhar.
E agora eu vejo meu barco indo só por essa bifurcação,
a correnteza não me permitiria voltar,
mesmo se eu ligasse todos os motores,
morreria náufraga e não voltaria pra lá.
O lado de lá é agitado,
o tráfego é intenso e seus tripulantes riem de mim isolada no hemisfério de cá.
Eu sinalizo com gestos amistosos,
insisto em mostrar a queda d'água que há logo à frente.
Todos riem dos meus signos,
não compreendem o que eu digo.
E saboreando seus banquetes,
gracejando dos humildes barcos que viajam ao meu lado
e que começam a se avolumar,
Os tripulantes do lado de lá urram
de nossa ingenuidade nas ondas fluviais.
Todos esperam ver nossos barcos afundar,
Mas enquanto se divertem com a nossa aparente fragilidade,
nós os vemos despencar queda abaixo.
Não houve tempo de se preparar para a queda.
O rio pelo qual conduziram suas vidas,
era demasiado veloz.
Nossos conselhos foram ignorados,
nossas previsões sobre o percurso rechaçadas.
Depois da bifurcação do rio,
nem o mais exímio tripulante poderá voltar atrás.
Até chegar ali, o rio foi longo e generoso,
e a escolha é a caneta que assinamos nossas sentenças,
mas...
Eles não entenderam que não se tratava de um jogo.
Era apenas uma verdade ainda desconhecida da maioria.
Não saberemos o que aconteceu com,
os tripulantes deste lado do rio.
Continuam a sua jornada com a certeza de uma longa vida.
Só isso não basta para quem tem no peito um baú,
mas como eles só desejam o trigo,
continuam nesta fase ainda, invictos.
Juliana S. Müller
Não há nada que eu diga que Drummond e Pessoa já não tenham dito.
Mas eu me repito.
Eu repito,
e a condição humana ressignifica a palavra.
E a condição mundana não entendeu o que eu falava.
Mas eu disse com exatidão,
e o que pareciam metáforas era a visão de um clarão.
Tudo se iluminou aqui.
Foram nascendo fagulhas,
que se transformaram em chamas.
E chamas ainda ardem em mim.
Mas ao contrário do sonhado,
não falo com alguém.
Meus poemas navegam por rios marginalizados,
e agora bifurcados pela correnteza,
só navegam em um único saber.
Não espero mais aplausos,
o que eu digo ninguém vai querer saber.
Eu mesma não quereria se os lesse sem me conhecer.
Mas eu me cavei poços fundos demais,
eu naveguei em rios isolados demais.
Ancorei em margens que não saberia narrar.
Conheci histórias que não me atrevo compartilhar.
E agora eu vejo meu barco indo só por essa bifurcação,
a correnteza não me permitiria voltar,
mesmo se eu ligasse todos os motores,
morreria náufraga e não voltaria pra lá.
O lado de lá é agitado,
o tráfego é intenso e seus tripulantes riem de mim isolada no hemisfério de cá.
Eu sinalizo com gestos amistosos,
insisto em mostrar a queda d'água que há logo à frente.
Todos riem dos meus signos,
não compreendem o que eu digo.
E saboreando seus banquetes,
gracejando dos humildes barcos que viajam ao meu lado
e que começam a se avolumar,
Os tripulantes do lado de lá urram
de nossa ingenuidade nas ondas fluviais.
Todos esperam ver nossos barcos afundar,
Mas enquanto se divertem com a nossa aparente fragilidade,
nós os vemos despencar queda abaixo.
Não houve tempo de se preparar para a queda.
O rio pelo qual conduziram suas vidas,
era demasiado veloz.
Nossos conselhos foram ignorados,
nossas previsões sobre o percurso rechaçadas.
Depois da bifurcação do rio,
nem o mais exímio tripulante poderá voltar atrás.
Até chegar ali, o rio foi longo e generoso,
e a escolha é a caneta que assinamos nossas sentenças,
mas...
Eles não entenderam que não se tratava de um jogo.
Era apenas uma verdade ainda desconhecida da maioria.
Não saberemos o que aconteceu com,
os tripulantes deste lado do rio.
Continuam a sua jornada com a certeza de uma longa vida.
Só isso não basta para quem tem no peito um baú,
mas como eles só desejam o trigo,
continuam nesta fase ainda, invictos.
Juliana S. Müller