Corri os olhos no quarto,
nada me faria ficar.
Nem os livros na estante,
Nem os vinils do Caetano.
Nem o autógrafo do Oswaldo.
Tudo era memória,
tudo era redundante.
Dei voltas na casa,
e tudo continuava insignificante.
Nem nas gavetas da memória
encontrei motivo para parar.
Então abri a porta e dei adeus a ela,
E quando a porta fechou ela ficou
congelada em algum lugar daquela foto antiga na parede.
Porque eu fui,
e desci as escadas firmemente.
E quando encontrei todo o céu,
tive a certeza de que só havia sentido
na vida ser um ser mutante.
E eu mudava a cada passo dado,
a cada imagem resetada do passado.
A cidade foi ficando para traz
e não havia saudade
Só alívio
em não ser mais aquela personagem
em deixar os rótulos,
e vínculos que me transformaram profundamente.
Agora eu estava nua,
Sem símbolos, sem nomes
Apenas eu e a minha loucura
Nós duas atravessando mundos
construindo novas pontes.
Nos alterando infinitamente
porque infinito é o desconhecido
é o que eu não alcanço com a minha mente.
Rumo ao desconhecido
que é exatamente o caminho
que me instiga
que me leva à frente.
E seguindo o fluxo do mundo
mergulhei em seu ritmo acelerado
deixando que meu corpo fosse levado
para todos os lados.
A única lágrima que derramei
foi quando senti toda a leveza da vida
e senti-me completamente grata
por estar viva e consciente.
Estou sentindo todos os sabores
Todos os cheiros
todas as texturas epiteliais
e isso não me adormece
isso me desperta pro ser cósmico
que é inerente.
Ser vivo.
É estar presente.
Eu continuo caminhando,
Eu continuo semente.
Juliana S. Müller